Se relaciona principalmente pela sensação de confusão mental, lembranças e distanciamento da realidade. Durante a obra, Celestino vive isolado em sua casa, já velho, passando muito tempo sozinho e cuidando do jardim. Mesmo vivendo no presente, ele parece estar constantemente ligado ao seu passado, principalmente às lembranças de quando era capitão de um navio negreiro.A própria ideia do título da música, que significa algo como “Onde está minha mente?”, combina com esse estado do personagem. Celestino parece viver em dois tempos ao mesmo tempo: seu corpo está no jardim, cuidando das plantas, mas sua mente ainda está presa em acontecimentos antigos. Dessa forma, existe uma sensação de que ele não consegue simplesmente abandonar aquilo que viveu. Além disso, a música possui um clima meio estranho, distante e até sonhador, o que combina bastante com a atmosfera do livro. Muitas vezes, as lembranças aparecem de forma quase fragmentada, como se estivéssemos entrando na mente de Celestino. Por isso, “Where Is My Mind?” combina com a obra porque representa essa relação entre memória, confusão e um personagem que parece não conseguir escapar totalmente da própria mente.
Mixtape sobre
A visão das plantas
Criado por Gustavo Mourão, Rocian Rodrigues, Juan Molino, Caio Benedito e Isaque Pereira
- 1. Where Is My Mind? (Pixies)
- 2. Knockin' On Heaven's Door (Bob Dylan)
- 3. Way down We Go (KALEO)
- 4. Creep (Radiohead)
- 1. Não Creio Mais em Nada (Paulo Sérgio)
- 2. Demons (Imagine Dragons)
- 3. Human (Rag'n'Bone Man)
- 4. Under the Bridge (Red Hot Chili Peppers)
A Visão das Plantas" acompanha os dias derradeiros do Capitão Celestino, um homem velho e doente que regressa à sua antiga casa materna, numa pacata vila portuguesa, após uma vida inteira de crimes e violências cometidos nos mares como pirata e comandante de um navio negreiro. Ao se deparar com o quintal abandonado da residência, Celestino decide limpá-lo e passa a dedicar o resto de suas forças ao cultivo obsessivo de um exuberante jardim. O coração da narrativa pulsa no contraste perturbador dessa rotina: as mesmas mãos calejadas que outrora açoitaram, prenderam e tiraram vidas humanas agora tocam a terra com extrema delicadeza, podando ramos e regando sementes. As plantas, alheias ao passado sangrento de quem as alimenta, crescem viçosas e retribuem o cuidado com flores e perfumes, oferecendo ao velho capitão uma convivência pacífica e sem julgamentos morales, já que o mundo vegetal carece de consciência sobre o bem e o mal.
Enquanto o jardim floresce, a presença de Celestino altera a dinâmica da vila. O Padre Alfredo tenta se aproximar do idoso na esperança de arrancar-lhe uma confissão ou testemunhar algum sinal de arrependimento cristão, mas depara-se com um homem impenetrável, que não demonstra culpa ou remorso explícito por seus atos. Paralelamente, as crianças locais orbitam a figura enigmática do capitão, fascinadas e assustadas por aquele velho silencioso que trabalha incansavelmente na terra. Celestino estabelece com os meninos uma relação de convivência muda, em que os pequenos o auxiliam nas tarefas do jardim e recebem dele pequenos agrados, como doces ou frutas, criando um laço de aparente ternura que esconde a sombra do monstro que ele já foi.
Conforme o corpo de Celestino definha e a morte se aproxima, sua mente passa a ser invadida por delírios e lapsos de memória, fazendo com que o tempo psicológico engula a realidade da casa. Os fantasmas de seu passado começam a povoar o jardim e os cômodos vazios, materializando-se nas figuras de suas vítimas mais marcantes: uma senhora negra que ele lançou ao mar e uma menina holandesa que deixou amarrada para morrer. Longe de aparecerem como aparições vingativas ou furiosas, esses espíritos manifestam-se de forma serena e quase terna no final de sua vida, misturando-se à paisagem vegetal da casa e acompanhando Celestino em sua solidão e agonia derradeira, até que ele finalmente morre, deixando para trás o mistério de sua mente e a beleza indiferente do jardim que criou.
Lado A
Se relaciona muito com A Visão das Plantas por causa da presença constante da morte. A música fala sobre alguém que percebe que está chegando ao fim da vida, como se estivesse literalmente batendo na porta do céu. Essa ideia combina diretamente com Celestino, que durante a obra já está velho, debilitado e vivendo uma espécie de último momento de sua existência. Ao longo do livro, existe uma sensação de que Celestino está esperando a morte chegar. Ele não possui mais a mesma vida de antes, não está mais viajando pelo mundo e não possui a mesma força. Agora, seu universo é basicamente sua casa e seu jardim. Esse espaço acaba funcionando quase como o cenário de seus últimos dias. A música também transmite uma sensação de despedida e cansaço. Isso combina muito com a forma como Celestino parece ter se afastado do mundo. A aproximação da morte também faz com que o passado dele tenha ainda mais peso, porque, quando alguém está próximo do fim, é comum existir uma reflexão sobre aquilo que foi feito durante a vida. No caso de Celestino, essa reflexão é ainda mais pesada porque seu passado está ligado à violência e ao tráfico de pessoas escravizadas. Por isso, “Knockin’ on Heaven’s Door” não combina apenas porque Celestino está velho, mas também porque levanta uma questão importante: o que acontece quando uma pessoa chega ao fim da vida carregando tantas coisas do passado?
Pode ser muito bem relacionada a A Visão das Plantas pela ideia de consequência, culpa e queda. A música apresenta um clima pesado e fala, de certa forma, sobre o momento em que uma pessoa precisa enfrentar aquilo que fez. Essa ideia se encaixa bastante na história de Celestino. Durante sua juventude, Celestino participou de ações extremamente violentas como capitão de um navio negreiro. Durante muitos anos, ele esteve envolvido diretamente em um sistema de exploração e sofrimento. Porém, na velhice, ele passa a viver uma vida completamente diferente, isolado e dedicado ao cuidado das plantas. Esse contraste é muito importante. De um lado, existe o Celestino do passado, ligado à violência; do outro, existe o Celestino velho, que cuida com atenção de flores, árvores e do jardim. Apesar dessa mudança, seu passado não desaparece. Ele pode mudar sua rotina, mas não pode apagar aquilo que fez. É justamente por isso que “Way Down We Go” combina com a obra. A música transmite a ideia de que, mais cedo ou mais tarde, as pessoas precisam lidar com as consequências de suas escolhas. O clima sombrio da música também combina com o peso moral presente no livro. A “descida” presente na música pode ser entendida de forma simbólica como uma queda moral, uma aproximação da morte ou até como o peso das ações do passado. Celestino pode tentar encontrar tranquilidade no jardim, mas existe algo dentro dele que permanece ligado àquilo que aconteceu anteriormente.
Possui uma relação forte com A Visão das Plantas por causa dos sentimentos de isolamento, inadequação e afastamento. A música fala sobre alguém que se sente diferente, estranho e que acredita não pertencer ao lugar em que está. Celestino também apresenta características parecidas durante a obra. Na velhice, ele vive praticamente afastado da sociedade. Sua relação com outras pessoas é limitada, e grande parte de seu tempo é passada sozinho. Seu jardim acaba se tornando quase sua principal companhia. Isso cria uma sensação de que Celestino não pertence mais completamente ao mundo das outras pessoas. Essa sensação também pode estar ligada ao seu passado. Depois de tudo que fez durante sua vida, existe uma distância enorme entre quem Celestino foi e a vida calma que tenta levar no presente. Ele parece não conseguir se encaixar completamente em nenhum desses dois lados. A música “Creep” também transmite uma forte sensação de desconforto consigo mesmo. Mesmo que Celestino não demonstre explicitamente o tempo todo que se odeia ou que sente culpa, a atmosfera da obra faz com que o leitor perceba que existe algo pesado dentro dele. Outra relação interessante é que o jardim parece funcionar como um lugar em que Celestino consegue existir sem julgamento. As plantas não conhecem seu passado e não sabem aquilo que ele fez. Com elas, ele não precisa explicar quem foi. Por isso, “Creep” combina com o livro por representar esse sentimento de estar distante das outras pessoas e de procurar um lugar onde seja possível existir sem ser constantemente confrontado.
Lado B
A música apresenta uma sensação muito forte de desânimo, perda de esperança, solidão e cansaço. Esses sentimentos podem ser relacionados diretamente à fase da vida de Celestino mostrada em A Visão das Plantas.
Durante o livro, Celestino já não possui grandes objetivos para o futuro. Sua vida parece ter diminuído até se resumir à casa, ao jardim e às lembranças. Ele não está construindo uma nova história ou planejando grandes mudanças. Existe a sensação de que ele simplesmente continua vivendo enquanto espera o tempo passar. Esse sentimento combina bastante com a música, que apresenta alguém que parece ter perdido a confiança em muitas coisas e que carrega uma forte sensação de vazio. No caso de Celestino, esse vazio também pode estar relacionado às consequências de sua própria vida. Outro elemento importante é a solidão. Celestino não está cercado de pessoas próximas, amigos ou familiares. Pelo contrário, ele vive praticamente sozinho. As plantas acabam ocupando um espaço muito importante em sua rotina e parecem ser uma das poucas coisas que ainda despertam seu cuidado. Isso cria uma contradição interessante: enquanto a música fala de alguém que parece ter perdido a esperança, Celestino ainda encontra alguma forma de dedicação através do jardim. Mesmo vivendo em um estado de isolamento, ele continua cuidando das plantas. Por isso, “Não Creio em Mais Nada” combina com o livro principalmente por transmitir a sensação de uma pessoa que já viveu muito, que perdeu grande parte de sua ligação com o mundo e que agora enfrenta seus últimos momentos com uma mistura de resignação, silêncio e solidão.
A música fala sobre aquilo que existe de obscuro dentro das pessoas, mesmo quando isso não aparece imediatamente para quem está olhando de fora. Celestino representa muito bem essa ideia. Quando observamos apenas sua vida no presente, vemos um homem velho que passa grande parte do tempo cuidando das plantas. Ele demonstra atenção e delicadeza com o jardim, o que poderia fazer com que uma pessoa imaginasse que ele sempre foi alguém tranquilo. Porém, ao longo da obra, descobrimos um lado completamente diferente. Seu passado como capitão de um navio negreiro mostra que ele participou diretamente de situações extremamente violentas e cruéis. Essa diferença entre o presente e o passado do personagem combina com a ideia dos “demônios” da música. Os demônios podem ser entendidos como os erros, traumas, culpas e lados obscuros que uma pessoa carrega dentro de si. No caso de Celestino, seus demônios estão principalmente ligados às suas lembranças. Mesmo vivendo uma vida diferente no presente, ele não consegue simplesmente apagar aquilo que aconteceu. A música também mostra que uma pessoa pode ter uma aparência normal e tranquila enquanto esconde conflitos muito maiores em seu interior. Isso é exatamente o que acontece com Celestino. O jardim representa calma, beleza e vida, enquanto seu passado representa violência e sofrimento. Por isso, a música combina tão bem com a obra: ela mostra que uma pessoa pode possuir lados completamente diferentes dentro de si e que alguns acontecimentos do passado continuam existindo mesmo quando ninguém consegue vê-los.
Pode ser relacionada a A Visão das Plantas principalmente pela discussão sobre erro, culpa, responsabilidade e condição humana. A música apresenta a ideia de que as pessoas são humanas, possuem limites e cometem erros. Essa ideia pode ser aplicada a Celestino, mas de uma maneira bastante complexa. Durante a obra, vemos que ele não é apresentado apenas como uma figura completamente simples. Ele possui diferentes lados. No passado, participou de atos extremamente violentos. Já na velhice, aparece cuidando de plantas com grande delicadeza. Isso faz com que o leitor pense sobre como um mesmo ser humano pode ser capaz de atitudes completamente diferentes ao longo da vida. Ao mesmo tempo, é importante perceber que a ideia de “ser humano” não serve para justificar qualquer ação. Existem erros pequenos e existem ações extremamente graves. O envolvimento de Celestino no tráfico de pessoas escravizadas não pode simplesmente ser tratado como um erro comum. É justamente essa contradição que deixa a relação com a música interessante. Quando a música diz que alguém é apenas humano, podemos relacionar isso à imperfeição e aos conflitos das pessoas, mas o livro também nos lembra que cada indivíduo precisa assumir responsabilidade pelo que fez. Celestino continua sendo humano, mesmo tendo cometido atos terríveis. Isso não significa perdoá-lo automaticamente, mas sim reconhecer que seres humanos podem carregar bondade, crueldade, culpa, arrependimento e contradições ao mesmo tempo. Por isso, “Human” combina com a obra porque ajuda a pensar sobre uma das questões mais profundas do livro: entender uma pessoa é diferente de justificar aquilo que ela fez.
Possui uma forte relação com A Visão das Plantas por causa da solidão e da tentativa de encontrar conforto em lugares quando esse conforto não é encontrado nas pessoas. Na música, o personagem demonstra se sentir sozinho e afastado das outras pessoas. A cidade acaba se tornando quase uma companhia para ele. Existe uma relação emocional muito forte entre a pessoa e o espaço ao seu redor. Algo parecido acontece com Celestino. Durante sua velhice, ele vive de maneira bastante isolada. Sua casa e principalmente seu jardim se tornam quase seu mundo inteiro. As plantas passam a ocupar um espaço emocional importante em sua vida.
Celestino dedica tempo e atenção ao jardim, observando e cuidando das plantas. Elas não fazem perguntas sobre seu passado, não exigem explicações e não possuem conhecimento sobre aquilo que ele fez. Isso pode explicar por que o jardim funciona como um lugar de conforto para ele. Enquanto outras pessoas poderiam julgá-lo pelo seu passado, as plantas simplesmente existem ao seu redor. A música também fala sobre a sensação de não possuir alguém próximo em determinados momentos. Essa ideia combina muito com a solidão de Celestino. Ele parece ter perdido boa parte de sua conexão com outras pessoas e encontra no espaço físico de sua casa uma espécie de refúgio. Além disso, tanto na música quanto no livro, o lugar deixa de ser apenas um cenário. O espaço passa a ter importância emocional. Na música, isso acontece com a cidade e com a ponte. No livro, acontece com a casa e principalmente com o jardim.Por isso, “Under the Bridge” combina com A Visão das Plantas porque mostra como alguém que se sente distante das pessoas pode criar uma relação extremamente forte com um lugar e transformar esse espaço em uma espécie de companhia.